
Inovação precisa ser bem gerenciada. Seleção de tecnologias aeronáuticas exige cuidado coma transição da invenção para o produto
Para quem não entende de engenharia aeronáutica, ver dezenas de “aviõezinhos” cortando os céus de São José dos Campos (SP) pode dar a impressão de assistir à prática de um hobby.
Mas longe disso, a competição SAE (Sociedade de Engenheiros da Mobilidade, na sigla em inglês) Brasil Aerodesign - realizada há 11 anos na cidade-sede da Embraer - tem sido responsável por colocar universitários brasileiros no radar da indústria mundial.
"Entrei na Embraer em função de ter participado da competição como estudante entre 1999 e 2000. O Aerodesign foi importante para conhecer engenheiros da empresa e a definir meu foco profissional", conta o integrante da equipe de projeto conceitual de aeronaves da companhia André van de Schepop.
Formado em engenharia mecânica, ele é o atual diretor de prova do SAE, responsável por coordenar a 11ª edição da Aerodesign no ano passado - disputa que contou com a participação de 81 projetos de protótipos de aviões desenvolvidos por futuros engenheiros do Brasil, Índia, México e Venezuela. "A surpresa da competição foi a presença dos indianos", recorda.
Mas há um motivo para os universitários do país asiático terem colocado o Brasil em suas rotas. Eles atravessaram o Oceano Atlântico porque a Aerodesign tem atraído cada vez mais a atenção de pesos-pesados do setor aeronáutico.
Tanto que a edição de 2009 foi patrocinada por EADS (controladora da Airbus), Embraer e Dassault Aviation (fabricante do caça Rafale, que concorre pelo fornecimento de 36 unidades às Forças Armadas brasileiras). "As empresas observam para descobrir pessoas", diz Schepop.
O olhar atento de Airbus, Dessault e Embraer se deve à dimensão que a competição vem ganhando ano a ano, curiosamente, em um Brasil comumente acusado de não ter mão de obra capacitada.
"O grande propósito é a formação de engenheiros que consigam ter uma experiência real de como fazer uma aeronave, com desafios parecidos aos enfrentados pela indústria", observa o diretor do SAE Brasil.
Nos ares americanos
Não foi sem motivo que a SAE Aerodesign East Competition, realizada este mês no Flying Field Club, em Fort Worth (EUA), copiou algumas regras da versão brasileira. Como resultado, as equipes Cefast AeroDesign, do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG), e EESC USP Micro, da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), ganharam o quinto troféu da Classe Regular e o primeiro da Micro.
Foram 65 equipes de diversos países concorrendo em três categorias (avançada, micro e regular). O Brasil foi o destaque com 11 troféus - sendo um deles, o da Classe Regular, levantado pela quinta vez consecutiva."Isso coloca a gente numa posição de destaque", comemora Thalis Paccelli.
O capitão da equipe Cefast, e também vencedor do Aerodesign Brasil 2009, ressalta ter sido preciso investir cerca de R$ 12 mil para participar de ambas as competições - recurso conseguido em bolsas de estudos no Cefet-MG e patrocínio de empresas.
Mas o maior obstáculo a superar, segundo ele, foi desenvolver aeronaves leves, conforme estabelece a regra da competição americana, com capacidade para carregar a maior quantidade possível de carga - desafio similar ao enfrentado pela indústria, que busca fazer aviões que consumam menos combustíveis e transportem mais pessoas.
O monoplano (aeronave de uma asa) da equipe Cefast, por sinal, levou o troféu de maior peso carregado: 14,65 quilos sobre um avião com 2,9 metros de envergadura (soma de comprimento e largura das asas).
Estagiário em uma metalúrgica de Belo Horizonte, Paccelli diz que voltar dos EUA com um troféu respeitado pode ajudar na carreira.
"Participar da competição nos Estados Unidos é uma vitrine. Ganhar é melhor ainda, porque você é visto no meio", pontua. Agora, ele espera colher frutos. "Quem sabe não vou para a Embraer?"
A brincadeira pode se tornar realidade, como aconteceu à estudante do último ano de engenharia aeronáutica da USP São Carlos, Vera Beatriz Gomide.
Ela participou em 2008 da primeira edição da Fly Your Ideas ("Voe com suas ideias", em tradução livre), disputa organizada pela Airbus para descobrir novos talentos.
"Em setembro estou indo para a França para um estágio de um ano na EADS. Acho que ter colocado minha participação no Fly Your Ideas no currículo ajudou a ganhar o estágio", comemora.
Autor: Nivaldo Souza
Fonte: Site Brasil Econômico, 23/05/2010
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